Artigo

13 Out, 2015
Transtorno de Personalidade Borderline

Borderline, como o próprio nome indica, significa “borda” ou “fronteira”.  Quem sofre deste transtorno de personalidade está sempre a um passo de transpor a linha divisória entre um estado de alma e outro. O que é afinal o Borderline e como se deve lidar com alguém que sofre deste distúrbio mental?

Borderline: o que é?

Síndrome de Borderline, Transtorno de Personalidade Limítrofe, Transtorno de Personalidade Borderline, Transtorno de Personalidade Emocionalmente Instável são nomes pelos quais é conhecido este distúrbio mental, considerada uma doença psicológica grave. Caracterizado por conferir aos seus doentes uma instabilidade mental elevadíssima, o Borderline afirma-se pela mudança repentina de um estado de espírito para outro. Os sintomas da doença manifestam-se a partir da adolescência e acompanham o doente até à idade adulta. Embora não se possam ter certezas absolutas em relação aos fatores que provocam este distúrbio mental, acredita-se que a hereditariedade, os traumas de infância e a predisposição genética possam estar relacionados com o surgimento do Borderline.

Como se manifesta este transtorno?

Um doente com Transtorno de Personalidade Borderline pode ser incrivelmente carinhoso ou extremamente agressivo. Pode num momento adorar uma pessoa e logo a seguir odiá-la profundamente, dependendo da forma como entende que essa pessoa o trata. Vive de forma intensa os relacionamentos, sufocando as outras pessoas com o seu receio de ser abandonado. Age por impulso, sem medir as possíveis consequências dos seus atos. Reage pessimamente a críticas e está sempre atento para não ser enganado. Desliga-se frequentemente da realidade para não sofrer e refugia-se nos seus pensamentos, adotando a imagem estereotipada do “estar na lua” durante as conversas. Alguns doentes com Borderline adquirem o costume da automutilação por entenderem ser mais fácil suportar a dor no corpo do que a dor que sentem na alma.

Diagnóstico & Tratamento

O Borderline não tem cura, no entanto, se diagnosticado atempadamente e devidamente acompanhado por um psicólogo ou psiquiatra, é possível ao doente manter o distúrbio controlado e levar uma vida praticamente normal. O tratamento consiste principalmente em sessões de terapia onde o doente aprende a criar defesas para as mudanças bruscas de emoções, bem como a criar estratégias para mudar a forma como reage ao exterior. A terapia pode ser acompanhada por medicação para combater o estado depressivo e acalmar a ansiedade característica da doença. Em casos mais graves, e quando o doente começa a manifestar tendências suicidas e/ou quando a medicação e a terapia se revelam manifestamente ineficazes, pode ser necessário o internamento do paciente numa unidade hospitalar.

Como lidar com alguém que sofre de Borderline?

Incentivar a procura de ajuda médica

Este é o primeiro e mais importante passo a dar quando se quer ajudar alguém que sofre deste distúrbio. Conseguir que a pessoa admita estar realmente com um problema que não consegue superar sozinha e levar à realização que só um médico a poderá ajudar corretamente é o princípio de todo o longo processo que se vai desencadear. Claro que o incentivo para a procura de tratamento tem que ser manifestado com muito tato para não se provocar um efeito contrário ao desejado. Expressões como “Vai-te tratar, estás mas é maluco” são, como é óbvio, completamente proibidas! É importante conseguir que o doente entenda que se está a sentir mal, que se poderia sentir muito melhor e que não tem necessidade alguma de se continuar a sentir tão mal assim. Por vezes, estes doentes tendem a deitar a culpa do seu sofrimento mental para cima de quem os rodeia e é fundamental que reconheçam que o problema está dentro deles e não nos outros.

Não ameaçar o doente

A técnica do “Ou deixas de ser assim ou vou-me embora” é altamente desaconselhável. Ameaçar o doente, ou “encostá-lo à parede”, obrigando-o a tomar decisões que têm que ser tomadas por sua própria iniciativa é como tentar obrigar um toxicodependente a desintoxicar-se sem que ele o deseje realmente. Tem que ser o próprio a decidir que quer melhorar e a esforçar-se por isso. Ameaças externas vão apenas levar a que a pessoa se irrite ainda mais e se revolte contra o mundo. Os doentes que sofrem de Transtorno de Personalidade Borderline têm um medo constante de serem abandonados por quem amam e as ameaças vão exacerbar esse medo, podendo levar a que as reações sejam imprevisíveis.

Não criar expectativas demasiado elevadas

O Borderline pode ser controlado e os seus efeitos atenuados, mas tudo terá que ser feito de forma gradual e contínua. Nenhum doente vai ficar ótimo logo após as primeiras sessões de terapia, e muito possivelmente existirão certas coisas que nunca chegará a ser capaz de fazer, ou pelo menos não da forma completa como seria desejável. Estabelecer expectativas demasiado elevadas leva a desapontamentos desnecessários. A melhor atitude a tomar é aceitar toda e qualquer melhoria com alegria e encarar o futuro com realismo. Tudo o que vier de bom será um ganho.

Um passo de cada vez

Ter calma quanto à rapidez do processo de tratamento ajuda muito não só a quem rodeia o doente, como ao próprio doente. Antes de andar é preciso aprender a gatinhar e antes que alguém com Transtorno de Personalidade Borderline apresente melhorias no seu estado há que assimilar novas técnicas e estratégias, sendo que tudo isso demora tempo para surtir efeito.

Entusiasmo sim, mas de forma comedida

Mostrar satisfação e alegria pelos progressos obtidos pelo doente é importante para que este veja reconhecido o seu esforço, mas sem demonstrações de grande euforia. O mais acertado é parabenizar o doente e fazer-lhe notar que a sua luta está a ser valorizada, mas ao mesmo tempo fazer-lhe ver que tem ainda um longo caminho a percorrer e que nem sempre as coisas poderão ser fáceis. Dessa forma, a pessoa fica ciente das dificuldades que o esperam e, mais do que isso, fica a saber que todos estão a par das suas reais dificuldades.

Estar preparado para os retrocessos

Nenhum processo de tratamento se faz sem que ocorram retrocessos ocasionalmente. É provável que assim seja e, no quadro dos transtornos mentais, essa é uma realidade que tem que ser encarada e aceite. É importante que a cada retrocesso o doente não se veja confrontado com recriminações e desapontamentos visíveis por parte de quem está perto dele. A caminhada para o tratamento faz-se dando pequenos passos, por vezes um passo para a frente e dois para trás, mas é preciso acreditar que passo a passo a melhoria é possível. É um processo longo, penoso e demorado, mas desde que não se desista, tudo ainda é possível.

Deixar o doente ser confrontado com as consequências dos seus atos

Tentar proteger o doente de todas as consequências das suas ações impulsivas e descontroladas bem longe de ser uma ajuda pode tornar-se num sério entrave à melhoria do seu estado. É necessário que a pessoa se veja confrontada com os resultados menos bons daquilo que faz. Se for desagradável com alguém, por exemplo, é bom que essa pessoa lho faça notar; se for desrespeitoso com alguém, deve ser chamado à atenção; se arruinar uma festa familiar é indispensável que sinta que o que fez foi errado. Almofadar e “colocar panos quentes” em tudo não ajuda, nem incentiva. Uma boa dose de realidade pode ser muito benéfica para quem tem que se dar conta do alcance das suas ações, mesmo que essa pessoa esteja mentalmente perturbada. O segredo está na forma como se fazem as observações, os reparos ou as críticas. O ideal é nunca levar a crer que se acredita que o doente fez de propósito porque é “má pessoa”. Comedimento e contenção nas palavras são cruciais.

Rodear o doente de um ambiente calmo e harmonioso

Quem sofre do distúrbio Borderline precisa de um ambiente calmo e tranquilo em seu redor para que a ansiedade característica da doença não seja ainda mais acentuada. Estas pessoas vivem num permanente estado de alerta e reagem de forma desmesuradamente grande a tudo que lhes parece desfavorável. Mudanças de atitudes, comportamentos, discussões, confrontos físicos ou verbais são alguns dos fatores capazes de despoletar crises grandes de nervosismo em quem padece de Borderline. Uma boa maneira de ajudar estes doentes é fornecendo-lhes a paz de que tanto carecem.

Manter as rotinas diárias

Rotinas são sinónimo de segurança e segurança é tudo o que a pessoa afetada pelo Transtorno de Personalidade Borderline precisa. Manter um padrão de rotinas diárias e não as alterar desnecessariamente vai apaziguar o medo que estes doentes sentem da mudança. As rotinas dão garantia de que a boa ordem se está a cumprir e de que não existem nuvens ameaçadoras no firmamento.

Envolver-se de forma ativa na terapia

As pessoas mais chegadas ao doente precisam de tomar parte ativa na terapia que este segue. Manter um bom nível de informação sobre o que é suposto cada qual fazer para ajudar, dispor dos contactos do psiquiatra que assiste o doente para poder pedir orientação e sugestões quando as coisas estão mais complicadas é muito importante. Demonstrar disponibilidade para ouvir o que o paciente tem a dizer, estar atento a possíveis piorias no estado anímico que possam ser preocupantes e, sobretudo, não reagir à raiva com raiva são dicas que não se podem esquecer quando se lida com alguém com este distúrbio mental.

Cuidar de uma pessoa com o Transtorno de Personalidade Borderline é uma tarefa muito árdua e que nem sempre surte os efeitos desejados no tempo desejado. Importante é que o cuidador não se deixe apanhar nas malhas da doença e não confunda a realidade concreta com a realidade existente na cabeça do doente.