Artigo

27 Maio, 2016

Eu “sofro” de transtorno de personalidade borderline ou personalidade limítrofe.

Como é viver com o transtorno de Personalidade Borderline?

Imaginemo-nos, um equilibrista (como num circo), que com uma vara (com 2 extremidades) em braços consegue ter equilíbrio suficiente para andar sobre uma estrutura, e vai de um ponto ao outro, de forma equilibrada.
Imagine-mos que essa estrutura é a Terra, “nós” o equilibrista e a vara a nossa vida e imaginemos ainda todo um arsenal de acontecimentos que podem (e não podem) ser evitados, a pousar nas extremidades da nossa vara, só que não oscila um bocadinho...desequilibra-nos de todo!

Os acontecimentos que afectam as pessoas que, como eu, vivem em extremos têm o condão de despoletar toda uma panóplia de sentimentos e comportamentos, também eles extremos e mais: já alguma vez andaram de montanha-russa? O nosso humor é igualzinho…ao longo de 24horas. Numa hora (talvez a cada minuto) é diferente.
É perder o controlo sobre o raciocínio viajando até ao psicótico. Num minuto, a pessoa que tu mais admiras, mais amas e mais confias, passa de bestial a besta! (na fase mais aguda eu ouvia vozes e sons a retumbar na cabeça).
É cansativo…para ti, para os outros.
Depois, emerge o inevitável vazio, que toda a gente te abandona e ninguém te compreende. E auto agrides-te, mordes-te, cortas-te, arrancas os teus cabelos, deixas de comer/comes em demasia, escreves cartas com o teu próprio sangue, tornas-te sexualmente promíscuo, entras numa de gastar dinheiro à parva…

Todos te acham “meio bipolar”, de pouca confiança porque és “super temperamental”. O transtorno bipolar difere em muito do transtorno de personalidade limítrofe, muito no horizonte do tempo. Por exemplo: no transtorno bipolar as oscilações de humor entre depressão e mania acontecem em intervalos de tempo relativamente constantes, ou seja, os estados podem permanecer cerca de meses e depois mudam. E mesmo dentro deste tempo pode desencadear depressão e hipomania (é complicado explicar o assunto, na dúvida o médico psiquiatra esclarece!

Como se chega ao diagnóstico?

Os diagnósticos não são feitos na hora, por vezes, passam-se meses até se chegar a um diagnóstico concreto. E na opinião de muitos médicos, não é o principal pois, é só mais um “rótulo” e isso não ajuda em rigorosamente nada).
Eu própria no inicio desta demanda, de depressões, insónia, oscilações de humor e irritação, alternando com dias em que me sentia completamente histérica de felicidade, me foi dito (psiquiatra) que teria “traços de personalidade que revelavam bipolaridade”.
Fui medicada em conformidade…e desastre! Deprimi ainda mais.
Recorri a outro psiquiatra (que desde logo referiu que não usava “rótulos” e tratava sim pessoas), que até agora se manteve o meu médico.

Como se lida com o transtorno?

É muito importante confiarmos nos nossos médicos e estar à vontade para falarmos de tudo com eles. Faço também psicoterapia, com a psicóloga que faz equipa com ele: e do ponto de vista comportamental, a psicoterapia ajudou-me imenso.

Mas primeiro, não devemos colocar “a carroça à frente dos bois”: antes de iniciar psicoterapia, teve que haver um período de tratamento apenas e só farmacológico. Porque na psicoterapia convém estarmos minimamente “estáveis” para se proceder a medidas correctivas de comportamentos e de raciocínio. Sem estabilidade, não há alteração e sem alteração não há mudança positiva.

Relativamente à medicação, não há um conjunto de medicamentos específicos para todas as pessoas. Todos somos diferentes, com queixas diferentes e problemas diferentes. A prioridade é “criar estabilidade química” para poder posteriormente “estabilizar o espírito”.
Dormir bem, fazer exercício físico (embora não apeteça-eu me denuncio!) e tentar não nos isolar, é essencial.
Se farei medicação para sempre? É possível, porque me permite estar estável e viver a vida relativamente bem…e não tenho vergonha disso.

Ângela Arcadinho