Distúrbios de ansiedade

De algum modo, todos nós já sentimos, mesmo que de forma passageira, nervosismo e ansiedade. No entanto, quando este sentimento se torna constante, passa a ser uma condição designada por distúrbio de ansiedade.
É considerado distúrbio de ansiedade se:

  • O corpo reage excessivamente a um estímulo, ou seja, quando a ansiedade é desproporcional ao estímulo, em virtude da sua intensidade ou duração.
  • Surge relacionada com estímulos que anteriormente não geravam ansiedade.
  • Ocorre ansiedade na ausência de um estímulo que impulsione essa ansiedade.

A ansiedade pode manifestar-se sob 3 formas: neuroendócrino, visceral e de consciência.

  • A nível neuroendócrino: relaciona-se com efeitos da adrenalina, noradrelina, hormona antidiurética, cortisol e glicagina.
  • A nível visceral: a ansiedade deve-se ao Sistema Nervoso Autónomo (SNA), que leva o organismo a excitar-se na resposta a alarmes ou a relaxar na fase de esgotamento.
  • A nível da consciência: o paciente possui sentimentos desagradáveis através da consciência das sensações fisiológicas como sudorese, palpitações, etc.

Os tipos de ansiedade mais comuns são:

  1. Síndrome de pânico
  2. Os ataques de pânico são geralmente intensos, possuindo sentimentos de ansiedade incontroláveis, combinados com uma gama de sintomas físicos. Uma pessoa com um ataque de pânico pode sentir falta de ar, dor no peito, tonturas e uma transpiração excessiva.

  3. Fobias
  4. Uma pessoa pode sentir medo em relação a um objeto em particular ou situação, tentando evitá-lo.

  5. Fobia social
  6. É considerada fobia social quando uma pessoa possui um profundo medo de ser criticado, envergonhado ou humilhado, mesmo em situações quotidianas como: falar em público, ser assertivo no trabalho, etc.

  7. Agorafobia
  8. Caracteriza-se por um medo incontrolável de espaços abertos. Este medo compulsivo pode ser extremamente inibidor, e as pessoas que sofrem desta condição tendem a desenvolver um padrão comportamental de modo a evitar cenários triviais (como, por exemplo, ir às compras).

  9. Transtorno obsessivo-compulsivo
  10. Uma pessoa com transtorno obsessivo-compulsivo possui pensamentos indesejados/intrusivos. Embora a pessoa reconheça esses pensamentos como desmiolados, muitas vezes tentam aliviar a ansiedade através da realização de determinados comportamentos ou rituais. Por exemplo, o receio à contaminação por germes pode levar a uma constante lavagem das mãos e das roupas.

  11. Transtorno de stress pós-traumático
  12. Este transtorno pode surgir depois de uma pessoa viver uma situação traumática (por exemplo, uma guerra, um assalto, um acidente), podendo surgir sintomas como dificuldade em relaxar, sonhos perturbadores, etc.

  13. Transtorno de ansiedade generalizada
  14. Uma pessoa com este transtorno sente-se ansiosa em grande parte dos dias, preocupa-se constantemente com coisas diferentes, durante um período de 6 ou mais meses.

Tal como acontece com outras condições de saúde mental, não se conhece as causas dos distúrbios de ansiedade.
No entanto, acredita-se que o distúrbio de ansiedade generalizada esteja diretamente associado a alguns neurotransmissores como, por exemplo, a dopamina, serotonina e noradrenalina.
Há estudos que indicam haver também fatores genéticos e psicossociais que influenciam a presença do distúrbio.

Há alguns “fatores de risco” que podem aumentar a probabilidade de determinado indivíduo desenvolver a condição, nomeadamente:

  • Género: esta é uma condição mais frequente em mulheres. Acredita-se que uma maior exposição ao stress, combinado com fatores como alterações hormonais, poderá dar origem a um diagnóstico de distúrbio de ansiedade.
  • Trauma: crianças que sofreram abusos e/ou traumas possuem um maior risco de desenvolver um distúrbio de ansiedade durante a vida adulta. Adultos que sofreram um trauma podem também desenvolver a condição.
  • Stress devido a uma doença: um indivíduo que já sofre de uma condição de saúde ou doença grave pode causar uma maior preocupação relativamente ao futuro como, por exemplo, relativamente ao tratamento e progressão da doença.
  • Acumulação de stress: uma grande situação de stress ou uma acumulação de várias situações de stress podem desencadear uma excessiva ansiedade. Situações como a perda de um ente-querido ou preocupações financeiras.
  • Personalidade: determinados tipos de personalidade como ser perfeccionista, possuir uma baixa autoestima, ter uma constante necessidade de controlo, torna as pessoas mais propensas a desenvolverem a condição.
  • Outros distúrbios de saúde mental: pessoas com outros distúrbios mentais, como a depressão, muitas vezes são também afetadas pela ansiedade.
  • Genética: o historial clínico dos familiares pode ser um fator que contribui para a condição. No entanto, se houver casos na família, não significa que os seus familiares terão necessariamente de desenvolver a doença.
  • Drogas ou álcool: o uso ou abuso de drogas e álcool pode causar e agravar a ansiedade.

Pessoas diagnosticadas com distúrbios de ansiedade regra geral apresentam sintomas emocionais e físicos. Assim, os principais sintomas associados à condição são:

Emocionais

  • Excessiva preocupação relativamente ao passado, presente e futuro
  • Sentimento de apreensão
  • Sem energia
  • Sensação de pânico iminente
  • Dificuldade em concentrar-se
  • Dificuldade em memorizar
  • Distorção da realidade

Físicos

  • Agitação
  • Boca seca
  • Palpitações
  • Sudorese
  • Pressão no peito
  • Mãos ou pés húmidos
  • Dificuldade em engolir
  • Náuseas
  • Vómitos
  • Diarreia
  • Tensão muscular
  • Sintomas gastrointestinais

No entanto, os sintomas físicos e viscerais podem ser diferentes de pessoa para pessoa. Aliás, nas mulheres podem causar uma disfunção hormonal, podendo interromper a menstruação.
Pessoas com a condição apresentam, muitas vezes, uma variedade de sintomas físicos como: fadiga, dores de cabeça, náuseas, insónias, ondas de frio/calor, dores musculares, formigueiro nas mãos e pés, irritabilidade, isolamento social, dificuldade de concentração, perda de memória, entre outros. Contudo, para que seja classificado como distúrbio de ansiedade, estes sintomas devem ser contínuos e persistentes durante pelo menos 6 meses.

O diagnóstico dos distúrbios de ansiedade é realizado em grande parte com base numa conversa que o profissional de saúde tem com o paciente. Para melhor compreender os sintomas, o historial clínico do paciente e familiares é analisado. Por vezes, são também usados questionários psicológicos que ajudam a identificar o problema do paciente. Poderão também ser realizados exames físicos, para identificar se há uma possível ligação entre a ansiedade e uma outra condição médica subjacente, especialmente nos casos dos pacientes que apresentarem sintomas mais físicos como rigidez muscular, aperto no peito, etc.
O diagnóstico da doença é realizado com base em alguns critérios enunciados no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais IV (DSM-IV). Este manual foi publicado pela Associação Psiquiátrica Americana e é usado por profissionais de saúde para diagnosticarem condições mentais e por companhias de seguros para reembolsar tratamentos.
O manual estabelece critérios para o diagnóstico de cada um dos tipos de ansiedade. Se estes critérios forem visíveis durante pelo menos 6 meses, o diagnóstico pode ser feito.
Uma vez que os transtornos de ansiedade frequentemente coexistem com outros transtornos psiquiátricos, pode tornar o diagnóstico um desafio.

Os critérios do DSM IV-TR para a ansiedade generalizada:

  1. Presença de ansiedade excessiva sobre eventos ou atividades que ocorrem em grande parte dos dias durante pelo menos 6 meses.
  2. Perda do controlo sobre a intensidade da preocupação.
  3. Ter pelo menos 3 dos seguintes sintomas: fadiga, falta de concentração, irritabilidade, problemas de tensão, agitação.
  4. Interferência significativa dos sintomas com as atividades sociais e de trabalho.
  5. Nenhum outro transtorno de humor ou problema psiquiátrico.

Os distúrbios de ansiedade generalizada geralmente ocorrem juntamente com outros problemas de saúde mental. Alguns distúrbios que geralmente ocorrem com o distúrbio de ansiedade generalizada incluem fobias, síndrome de pânico, depressão, distúrbio de stress pós-traumático, entre outros.

Os critérios do DSM IV-TR para a ansiedade pânico:

  1. Ataques frequentes de pânico sem causa ou aviso.
  2. Agrofobia (medo de grandes espaços abertos).
  3. Medo e preocupação com outro ataque.
  4. Preocupação sobre as consequências de um ataque.

Os critérios do DSM IV-TR para transtorno de stress pós traumático:

A condição pode ser acompanhada por sentimentos de medo, desamparo ou horror e esses sentimentos devem persistir pelo menos durante mais de um mês.
O paciente pode reviver o evento através de:

  1. Lembranças recorrentes do evento com pensamentos, perceção ou flashes de imagens.
  2. Sonhos recorrentes.
  3. Sentido de reviver o incidente com ilusões, alucinações e flashback.

Paciente evita ou sente, ainda os seguintes sintomas:

  • Pensamentos, sentimentos associados ao evento/situação.
  • Perda de interesse por atividades que anteriormente davam prazer.
  • Distanciamento ou estranhamento de outros.

Os critérios do DSM IV-TR para o transtorno obsessivo-compulsivo:

  1. Obsessões são pensamentos recorrentes e intrusivos, impulsos ou ideias. Regra geral, não surge nenhuma preocupação excessiva sobre problemas da vida real. O paciente tenta suprimir ou ignorar tais pensamentos e reconhece que os pensamentos obsessivos são um produto da sua própria mente.
  2. Compulsões são comportamentos repetidos e ações mentais que o paciente é orientado a seguir, de acordo com regras rígidas. As compulsões aliviam a ansiedade e reduzem o sofrimento. Estes não são realistas e são excessivos.
  3. As compulsões podem durar mais de 1 hora.

Pode ainda haver sintomas associados à ansiedade como:

  • Problemas de sono
  • Explosões de irritabilidade
  • Falta de concentração
  • Vigilância acrescida
  • nterferência a nível social e profissional

Há diversos tratamentos que poderão tratar a condição, uns aprovados pela comunidade científica e médica, outros nem tanto. O tratamento varia de pessoa para pessoa, além de que toda a comunicação verbal e não-verbal por parte do paciente é importante para que o profissional de saúde defina o melhor tratamento.
O tratamento pode incluir uma ou todas das seguintes fases:

  • Medicação: regra geral antidepressivos e benzodiazepínicos (calmantes).
  • Terapia não farmacológica: psicoterapia para identificar a origem da ansiedade e como lidar com ela. A associação entre medicação e psicoterapia poderá ter bons resultados. Fototerapia (particularmente em países que possuem uma baixa exposição solar) e eletroconvulsivoterapia (realizada com o paciente anestesiado e inconsciente). Há ainda estudos que referem a terapia cognitivo-comportamental e técnicas de relaxamento, como o ioga, como eficazes no tratamento da condição.
  • Alteração do estilo de vida: uma maior atividade física, otimização do horário de trabalho, dormir bem.

É difícil de diagnosticar uma criança com distúrbios de ansiedade. A ansiedade nas crianças pode manifestar-se através de problemas a nível de comportamento ou com natureza perturbadora ou rebelde.

Sintomas como dor no peito e falta de ar são muito frequentes em pessoas com distúrbios de ansiedade. No entanto, estes sintomas também são comuns em doenças cardíacas.
Podem surgir também sintomas como dor no peito, dificuldade em respirar após exercício, fadiga, tosse, palpitações, etc.
Outros sintomas comuns com outras condições são:

  • Asma: ataques de pânico podem mascarar ataques de asma.
  • O facto de a tiroide estar mais ativa pode levar a palpitações.
  • A hipoglicemia (diminuição da quantidade de açúcar no sangue) manifesta-se como sudorese e palpitações.
  • Abuso de substâncias e cafeína pode levar a sintomas muito semelhantes à ansiedade.

A doença, além de fazer o paciente sentir-se constantemente ansioso e preocupado, pode levar a outras condições de saúde física e mental, nomeadamente:

  • Depressão
  • Dores de cabeça
  • Ranger os dentes
  • Problemas digestivos e/ou intestinais
  • Insónias

A recuperação do indivíduo depende da gravidade da doença. Os distúrbios de ansiedade podem persistir e serem difíceis de tratar, no entanto, em grande parte dos casos os pacientes melhoram quando combinam uma terapêutica farmacológica com uma terapia comportamental.

Não há formas científicas e medicamente comprovadas que previnam o distúrbio. No entanto, adotar um estilo de vida saudável como evitar um alto consumo de álcool, tabaco, cafeína, drogas, e praticar exercício físico ajuda a proteger das doenças.