Linfedema

O linfedema é uma doença crónica que se traduz num edema (inchaço) das partes moles decorrente da perturbação ou obstrução do sistema linfático. Consiste numa acumulação de substâncias e líquidos, especialmente proteínas nos tecidos, levando a um mau funcionamento do sistema linfático. Atinge em especial os membros, no entanto, poderá atingir outras partes do corpo, como órgãos genitais ou a cabeça.

O sistema linfático é uma rede complexa de órgãos linfóides, gânglios linfáticos, ductos linfáticos, tecidos linfáticos, capilares linfáticos e vasos linfáticos que produzem e transportam fluido linfático (linfa) dos tecidos para o sistema circulatório. O sistema linfático apresenta um papel importante no sistema imunológico dado que, em colaboração com os glóbulos brancos, cria uma proteção contra bactérias e vírus.

O sinal mais frequente de linfedema é o edema dos membros, braços e pernas. No entanto, outras doenças podem provocar os mesmos sintomas. Outros sintomas associados ao linfedema são:

  • Fadiga severa com sensação de braços ou pernas pesadas
  • Sensação de aperto na pele
  • Membros inchados ou acumulação de líquidos
  • Edema indolor que inicia nas extremidades, mãos e pés, e progride em direção ao tronco
  • Pele lisa ou brilhante
  • Despigmentação da pele que recobre o linfedema
  • Perda de cabelo
  • Sensação de pernas a queimar
  • Atividades diárias, tal como a capacidade de trabalhar podem ser afetadas pelo linfedema

Estes sintomas podem ocorrer de forma lenta ao longo do tempo, ou mais rapidamente, se houver uma infeção ou lesão no braço ou perna.

O linfedema pode ser classificado em 3 diferentes graus, de acordo com o estádio da condição.

Grau I – Linfedema reversível com elevação do membro e repouso durante 24-48 horas.
Grau II – Linfedema irreversível com repouso prolongado, fibrose no tecido subcutâneo de moderada a grave.
Grau III – Linfedema irreversível, apresentando fibrose acentuada no tecido subcutâneo, sendo o estágio mais grave da doença.

As causas de linfedema podem ser classificadas como primárias (hereditário) e secundárias (adquirido), sendo o segundo mais frequente. A causa do linfedema primário é desconhecida, ocorrendo geralmente por um mau desenvolvimento ou ausência de gânglios linfáticos e/ou canais do corpo ou outras anormalidades vasculares, ou seja, malformações linfáticas. O linfedema pode já estar presente ao nascimento, ou desenvolver-se no início da puberdade, ou até não ser visível até à idade adulta. Relativamente aos linfedemas secundários, poderão apresentar diversas causas como:

  • Remoção dos gânglios linfáticos
  • Obesidade
  • Cicatrização lenta da pele após uma cirurgia
  • Tumor que afeta ou bloqueia o ducto ou gânglios linfáticos ou vasos linfáticos
  • Cancro metastático
  • Infeção por bactérias, fungos ou parasitas
  • Danos no sistema linfático
  • Infeção pós radioterapia
  • Cancro da mama, cancro do útero, cancro da próstata, linfoma, melanoma

Alguns casos de linfedema de membros inferiores têm sido associados a alguns medicamentos, pelo facto de levarem à formação de coágulos sanguíneos e trombose venosa profunda (TVP).

É importante certificar que não existem outras possíveis causas para o edema. Assim, os seguintes testes e procedimentos podem ser utilizados para diagnosticar linfedema:

  • Exame físico e de historial clínico: o exame físico permite verificar sinais gerais de saúde, incluindo sinais da doença, como nódulos ou outras massas menos comuns. A análise do historial clínico do paciente, como doenças e tratamentos anteriores, e hábitos de saúde do paciente deverão ser considerados.
  • Linfocintigrafia: um procedimento muito usado no diagnóstico do linfedema, dado que permite avaliar a função linfática, visualizar os vasos linfáticos e gânglios linfáticos, e quantificar o transporte linfático.
  • Linfangiografia: injeção de contraste diretamente nos vasos linfáticos. Atualmente, muito raramente solicitada.
  • Imagens radiológicas: a ressonância magnética nuclear ou tomografia computorizada permite obter uma série de imagens com detalhe do interior do corpo, permitindo identificar padrões característicos de linfedema.
  • Eco-Doppler: usado muitas vezes para excluir a presença de um trombo nas veias da perna (fazendo o diagnóstico diferencial).
  • Ultrassonografia: é um instrumento não invasivo complementar para avaliação do membro. Em pacientes com linfedema, é observado o espessamento cutâneo, nos compartimentos epifascial e subfascial.

Quando o fluido linfático excede a capacidade que o sistema linfático possui em transportá-lo, uma quantidade anormal de um fluido rico em proteínas poderá acumular-se nos tecidos da área afetada. Se não for tratado, o líquido estagnado rico em proteínas provocará um aumento dos canais de tecido em tamanho e número, reduzindo a disponibilidade de oxigénio.
A inflamação da pele e de tecidos conjuntivos, inflamação de vasos linfáticos, trombose venosa profunda são também complicações do linfedema.
É vital que os pacientes com linfedema estejam cientes dos sintomas da infeção, para que procurem tratamento aos primeiros sinais, uma vez que infeções recorrentes, além de seu perigo inerente, ainda (podem) danificar o sistema linfático e criar um círculo vicioso.
Muito raramente, em alguns casos extremamente graves, no caso do linfedema não ser tratado durante 6 e 10 anos, por exemplo, poderá surgir um cancro conhecido como linfangiossarcoma. O cancro começa como um nódulo avermelhado na pele, alastrando-se rapidamente. É um cancro bastante agressivo, sendo tratado por amputação do membro afetado.

O melhor tratamento é o diagnóstico precoce e prevenção de complicações. A Terapia Física Complexa (TFC) tem-se mostrado o tratamento com resultados consistentes. Outros tratamentos que visam reduzir o desconforto, do edema, melhorar a aparência dos membros poderão ser:

  • Elevar o(s) membro(s) afetado(s) pode ajudar na drenagem do sistema linfático, levando à redução do inchaço.
  • O uso de mangas elásticas ou meias (devidamente adaptadas ao corpo) proporcionam uma compressão gradual a partir do final da extremidade para o tronco.
  • A drenagem linfática manual é uma massagem que facilita a circulação do líquido linfático até aos gânglios linfáticos que o drena para fora do corpo, contribuindo para uma redução do edema. A massagem deve ser feita com pressões suaves, sem pressionar os músculos, e das extremidades para o centro do corpo.
  • Dispositivos de compressão pneumática através da utilização de mangas elásticas ou meias ligadas a uma bomba que fornece compressão sequencial a partir do final da extremidade na direção do corpo. Estes dispositivos podem ser usados em casa ou em clínicas, sendo úteis na prevenção de cicatrizes, podendo também ser utilizados em indivíduos com insuficiência cardíaca congestiva, trombose venosa profunda, e em outras infeções.
  • Tratamento a laser de baixa intensidade proporciona um alívio do linfedema pós-mastectomia.
  • Usar loções sem álcool e sabão previne contra as infeções.
  • Manter uma boa hidratação é essencial para a função linfática.
  • O exercício ajuda a fortalecer os músculos, podendo ser prescrito pelo médico ou fisioterapeuta, ajuda a estimular o fluxo de linfa, além de que melhora a capacidade de absorção de proteína por parte do corpo. Deverá usar-se uma luva de compressão (preferencialmente prescrita por um profissional de saúde).
  • Os tratamentos cirúrgicos para o linfedema são utilizados para remover o excesso de fluido e tecido. Em casos mais graves, no entanto, nenhum tratamento cirúrgico é capaz de curar totalmente o linfedema.
  • Infeções da pele e tecidos associados com linfedema devem ser rapidamente e efetivamente tratadas com antibióticos apropriados para evitar a disseminação para a corrente sanguínea (sepsia).
  • O uso de calor, através de raios infravermelhos, que desnatura as proteínas e facilita a sua remoção pelos capilares venosos semipermeáveis. Noutros estudos onde foram aplicadas ondas eletromagnéticas ou micro-ondas, observou-se uma redução do edema.
  • Outras medidas poderão ajudar no tratamento do linfedema, como perda de peso em pacientes obesos e realizar uma dieta pobre em sal, evitar o consumo de álcool, evitar o uso de roupas apertadas nas coxas ou cintura.
  • Apoio psicológico, principalmente em mulheres mais jovens, diagnosticadas com linfedema precoce e também pós-mastectomia.

Contudo, não existe um consenso relativamente ao melhor tratamento. O tratamento deve ser adequado a cada paciente, ao estádio da doença, do tempo de evolução e do doente em questão. Não existe medicação para a cura do linfedema, mas poderão ser prescritos fármacos para tratar problemas associados.
Todos os pacientes devem ser esclarecidos relativamente à sua doença e o que esperar da evolução da mesma, o que depende da sua total colaboração para obter bons resultados com a terapêutica. Assim, o linfedema apresenta um quadro clínico que implica uma mudança no estilo de vida das pessoas diagnosticadas com a condição, para que a doença não evolua para formas extremas.

O prognóstico do linfedema é bastante difícil, devido à existência de uma multiplicidade de causas. No entanto, muitas vezes pacientes que apresentam aplasia ou hipoplasia distal na linfografia são considerados de bom diagnóstico, com uma evolução lenta do edema e de complicações. Por outro lado, em pacientes que apresentem hipoplasia proximal, associada ou não à distal, a progressão para edema severo é rápida e com complicações.

Pacientes diagnosticados com linfedema poderão ser envolvidos numa equipa multidisciplinar, constituída por especialistas em:

  • Angiologia e Cirurgia Vascular
  • Dermatologia
  • Cirurgia Plástica
  • Psicologia
  • Medicina Nuclear
  • Fisioterapia
  • Drenagem linfática manual