Artigo

17 Fev, 2015

Nos últimos anos, a quimioterapia tem sido um dos principais pilares no tratamento do cancro. No entanto, a maioria dos medicamentos usados são tóxicos para as células saudáveis, enquanto outros têm dificuldade em chegar até aos tumores.

Recentemente, um novo estudo apresentou uma solução para ambos os problemas. Os investigadores usaram campos elétricos para direcionar compostos químicos para tratar tumores em animais, aumentando drasticamente a concentração do medicamento na zona do tumor.
No entanto, como em todos os potenciais tratamentos do cancro realizados a partir de estudos em animais, mais investigações precisam de ser feitas até este novo método chegar aos pacientes.

Robert Langer, engenheiro químico no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em Cambridge, e considerado pela revista Forbes e Bio World uma das 25 pessoas mais importantes no mundo da biotecnologia, afirma que estes primeiros dados parecem promissores.

Joseph DeSimone, químico na Universidade da Carolina do Norte, e líder do estudo, confidenciou que o seu interesse em trabalhar noutras alternativas ao tratamento de cancro surgiu anos depois de ter trabalhado no desenvolvimento de medicamentos por via oral. Para além disso, recentemente perdeu um colega próximo diagnosticado com cancro no pâncreas que, tal como outros pacientes com a doença, não resistiu aos efeitos secundários da quimioterapia.
O investigador DeSimone já tinha tentado uma abordagem diferente para a libertação dos medicamentos de quimioterapia, especificamente no local dos tumores através de polímeros biodegradáveis, os quais se decompunham lentamente depois de terem sido implantados ao lado de um tumor. No entanto, esta abordagem provou que não era eficiente no caso do cancro do pâncreas. Tal como em outros tumores, os tumores pancreáticos criam uma elevada pressão do fluido interno, empurrando os medicamentos e impedindo que estes se concentrem dentro do tecido canceroso.

Procedimento

Nos últimos anos, outros grupos de investigação concluíram que seria possível usar pequenos campos elétricos para conduzir fármacos para o olho e bexiga.
Assim, o investigador DeSimone tentou usar a mesma estratégia, mas direcionado para tumores sólidos. Para isso, construíram um pequeno reservatório desenhado para manter um medicamento de quimioterapia líquido. Este reservatório também continha um dos 2 elétrodos que criam o campo elétrico necessário para direcionar o fármaco para o tecido tumoral.
DeSimone e a sua equipa testaram o seu método de transmissão de medicamentos em ratinhos com cancro no pâncreas e na mama. Implementaram, também, os seus dispositivos na superfície do pâncreas de cães sem tumores, de modo a avaliar qual o melhor fluxo dos medicamentos nos tecidos de animais de maiores dimensões (de modo a aproximar-se do ser humano).

Numa investigação, os investigadores iniciaram com ratinhos que tinham sido implantados com tumores de cancro pancreático humano. Um grupo de ratinhos foi posteriormente implantado com elétrodos e administrado um fármaco anti cancerígeno designado por gemcitabine, que tomaram 2 vezes por semana, durante 7 semanas.
No final do estudo, os investigadores observaram que os animais do grupo experimental apresentaram concentrações muito mais altas de gemcitabine nos seus tumores, em comparação com os ratinhos de controlo. Isto fez com que os tumores diminuíssem acentuadamente nos grupos dos animais experimentais, enquanto os tumores nos ratinhos de controlo continuaram a crescer.

Num conjunto separado de experiências, DeSimone e os seus colegas conduziram o fármaco anti cancerígeno através da pele de ratos que possuíam 2 tipos diferentes de cancro da mama agressivo, implantados por baixo da pele. Os investigadores descobriram que o local de condução do fármaco inibiu fortemente o crescimento do tumor e duplicou o tempo de sobrevivência dos ratinhos.

Num estudo final, já realizado em cães, os investigadores descobriram que a condução elétrica de gemcitabine através do dispositivo implantado, aumentou a concentração do fármaco 7 vezes mais dentro do tecido pancreático, mas reduziu 25 vezes na corrente sanguínea.

Conclusão do estudo

DeSimone argumenta que a nova estratégia de condução dos fármacos poderá trazer uma maior eficácia na quimioterapia, reduzindo, ao mesmo tempo, os efeitos secundários. O líder do estudo afirma ainda que, este novo método poderá ser importante no tratamento de cancros mais complicados, é o caso do cancro do pâncreas, dado que o tumor agrega-se em torno de outros órgãos e vasos sanguíneos, tornando-se difícil remover cirurgicamente. No entanto, mesmo que este novo tratamento não consiga fazer desaparecer o tumor, poderia reduzi-los o suficiente para que fosse possível, numa fase posterior, fazer a cirurgia.

Contudo, a forma como estes dispositivos poderão funcionar ainda não é totalmente clara.