Artigo

03 Dez, 2014

O autismo é uma forma particular de experienciar e visualizar o mundo e, consequentemente, construir um mundo e uma realidade muito própria. O autismo identifica-se por comportamentos e habilidades padrão, como isolamento do mundo exterior (pessoas com autismo não gostam de ser olhadas nos olhos e não gostam que lhes toquem), dificuldades em falar e comunicar, receio de mudanças e insistência em manter uma imobilidade naquilo que os rodeia, entre outros.

Muitos estudos têm sido realizados no sentido de identificar as causas da condição. Alguns estudos têm apontado causas fisiológicas, como disfunções genéticas, consequências dos metais pesados no interior do organismo, intolerâncias alimentares, infeções e problemas no nascimento, etc.
Grande parte dos estudos desenvolvidos até há pouco tempo incluía indivíduos que partilhavam o mesmo fenótipo – características físicas – mas cujo autismo poderá ter surgido a partir de causas completamente diferentes. Devido a este facto, estes estudos produziram resultados confusos.

Thomas Frazier, diretor da Cleveland Clinic Children’s Center para autismo, afirmou que “reconhecemos que o autismo é um transtorno muito heterogéneo e não se consegue fazer grandes progressos quando se estuda a doença como sendo homogénea”.
Nos últimos 5 anos, os investigadores têm chegado à conclusão, através da genética subjacente à doença, que existem diferentes subtipos genéticos de autismo. Nesse sentido, em alguns estudos, as pessoas têm sido escolhidas não de acordo com um determinado fenótipo, mas de acordo com um padrão genético, classificando as crianças com autismo com base na sua genética. Estes “estudos genéticos” podem ajudar os investigadores a construir uma taxonomia do autismo e compreender a origem da sua diversidade. Estes estudos podem até eventualmente levar a tratamentos que considerem a causa do autismo da criança, em vez dos sintomas.

Mutações associadas ao autismo

Alguns distúrbios genéticos estão associados ao autismo como, por exemplo, o Síndrome de Rett (anomalia no gene MECP2) e Síndrome do X frágil (mutação do gene FMR1 no cromossoma X) – geralmente pessoas com mutações no mesmo gene apresentam os mesmos sintomas.
Nos últimos anos, com o avanço da tecnologia de sequenciamento e a análise do ADN, permitiu concluir-se que o Síndrome do X frágil representa uma fração importante dos casos de autismo idiopático.
A partir de meados de 2000, a tecnologia microarray – ferramenta de análise de expressão genética – permitiu concluir que as pessoas com autismo tendem a possuir muitas variações, deleções ou duplicações de grandes fragmentos de ADN que abrangem vários genes. Isto levou os investigadores a concluir que as pessoas que possuem o mesmo número de cópias de variações geralmente partilham outras características, assim como sintomas.
Para melhor conhecer estas semelhanças, algumas equipas começaram a analisar subgrupos de pessoas que possuíam alterações cromossómicas em comum. Um projeto, Simons VIP, está a estudar um grupo de 200 pessoas com variações numa região cromossómica designada por 16p11.2. Cerca de 20% dos indivíduos com deleções nesta região e 10% com duplicações possuem autismo.

Nos últimos anos, pelo facto de se ter tornado mais fácil analisar o ADN de pessoas com autismo, tem sido analisado a sequência de codificação das proteínas dos seus genomas – cerca de 1% de 3 mil milhões de pares de bases que compõem cada genoma. Esta análise revelou que muitas pessoas com autismo têm mutações que não são encontradas em pessoas que não possuem o transtorno, no entanto, poucas pessoas diagnosticadas com autismo partilhavam a mesma mutação.
Assim, dividiram-se as pessoas com autismo em subgrupos com base nas alterações dos genes individuais. O objetivo seria ligar um gene ao autismo e à descrição dos sintomas, para identificar as mutações recorrentes, aqueles que surgem repetidamente e não apenas uma ou duas vezes.
Desde 2011, Evan Eichler, professor de genética na Universidade de Washington, estabeleceu colaborações com geneticistas da Bélgica, Holanda, Suécia, Austrália e China que gerenciam registos de pessoas que possuem autismo ou atraso no desenvolvimento. Isto permitiu que os investigadores tivessem acesso ao material genético de mais de 6000 adultos e crianças com autismo.

Características fenotípicas

A partir deste conjunto de potenciais participantes, os investigadores identificaram as pessoas com uma mutação num dos 200 genes associados ao autismo. Para a determinação de perfis precisos para cada subtipo genético de autismo, a equipa de investigação convidou estas pessoas para realizarem testes como testes padrão-ouro de diagnóstico do autismo, exames médicos, avaliação da história clínica, medição e análise da cabeça, habilidades motoras, etc.
No caso de um gene, CHD8, os investigadores rapidamente associaram um perfil ao gene. No estudo, os investigadores identificaram duas pessoas com características fenotípicas semelhantes como olhos grandes, macrocefalia – cabeça grande – e dificuldade em adormecer. Assim, os investigadores concluíram haver um padrão, uma tendência.
No entanto, ainda não é claro como as mutações no gene CHD8 causam os sintomas, mas CHD8 é conhecido por estar associado ao processo de enrolar e condensar o ADN em cromossomas e regular outros genes que desempenham um papel neste processo.

Tratamento personalizado

A verdadeira promessa dos estudos de genética não é definir apenas um subtipo de autismo, mas sim encontrar padrões de semelhança entre os diversos subtipos, de forma que os padrões identificados possam ajudar a definir as vias bioquímicas comuns que dão origem aos sintomas, levando a tratamentos cada vez mais personalizados.
Ao concentrar-se numa rede de cerca de 50 genes que são regulados pelo CHD8, a equipa da Universidade de Washington já começou a juntar alguns padrões. Por exemplo, descobriram que crianças com mutações no gene DNP tendem a ter problemas digestivos, mas apresentam uma maior propensão para sofrerem de uma deficiência intelectual.

Pessoas com mutações no gene DYRK1A regulado pelo CHD8, também possuem deficiência intelectual, mas não possuem problemas intestinais. Estas pessoas possuem também cabeças pequenas – o oposto observado em crianças com mutações CHD8 que apresentavam macrocefalia. Assim, os investigadores suspeitam que os genes CHD8 e DYRK1A desempenham papéis opostos no desenvolvimento do cérebro. Esta situação, a ser verdade, levará a uma terapia personalizada, dado que um tratamento que beneficia as pessoas com poucos neurónios (com deficiência intelectual) pode causar problemas em pessoas com muitos neurónios.

Outras equipas de investigação, como por exemplo a equipa de investigação coordenada por Eric Morrow na Universidade de Brown, nos Estados Unidos, têm focado os seus estudos no gene NHE6, o qual está envolvido no desenvolvimento neuronal. Mutações no NHE6 levam à síndrome Christianson. Crianças afetadas com esta síndrome possuem uma deficiência intelectual severa, não conseguindo falar e uma parte delas são diagnosticadas com autismo.
A equipa de investigação de Frazier tem estudado o gene PTEN e concluiu que pessoas com mutações neste gene tendem a processar a informação de forma mais lenta e possuem défices de memória, além de possuírem uma fraca capacidade em manter em mente múltiplas partes de informação durante curtos períodos de tempo. Assim, terapeutas comportamentais e professores deverão adaptar os seus métodos quando lidam com crianças com autismo associado a mutações neste gene. Estes profissionais de saúde devem falar mais devagar, manter diretivas curtas e simples, e evitar pedir às crianças que se lembrem de várias partes de informação ao mesmo tempo.
A equipa de investigação de Frazier observou que pessoas com mutações no gene PTEN, além de apresentarem uma cabeça grande, possuem grandes quantidades de substância branca. A substância branca é mal organizada, o que poderá estar relacionado com dificuldades a nível de memória.

Os diferentes subtipos genéticos de autismo são importantes, no entanto, os investigadores devem ter algum cuidado, uma vez que podem identificar padrões inadvertidamente num grupo que na verdade não os diferencia de outros grupos, ou pode minimizar as diferenças dentro de um grupo. Por exemplo, problemas intestinais e problemas do sono são comuns entre crianças com autismo, e não apenas naqueles que possuem uma mutação no CHD8.
Por outro lado, alguns genes associados ao autismo podem resultar numa enorme variedade de fenótipos que podem incluir desordens a nível do desenvolvimento neurológico diferente do autismo. Outros genes podem não estar associados com qualquer fenótipo previsível.
Apesar de todos os estudos já realizados, continua a haver mais perguntas do que respostas.

Fonte:New Gene Studies Suggest There Are Hundreds of Kinds of Autism