Diabetes mellitus

A diabetes mellitus, ou simplesmente diabetes, é uma doença metabólica caracterizada por um aumento anormal de glicose (açúcar) no sangue. A glicose é a principal fonte de energia do organismo, contudo, quando em excesso pode trazer diversas complicações à saúde.
A diabetes é hoje um dos maiores problemas de saúde em todo o mundo. Atualmente mais de 250 milhões de pessoas possuem a doença.
A diabetes mellitus é uma das maiores causas de morbilidade e mortalidade a nível global, incluindo rinopatia diabética, insuficiência renal e amputação. As complicações cardiovasculares estão associadas a 50%-80% das mortes nos diabéticos.
Em Portugal, pensa-se que a prevalência da doença seja de 12.4%, sendo o país da União Europeia com uma prevalência mais elevada da condição.

É uma doença genética e hereditária. Regra geral, se houver casos na família de primeiro grau com a doença, há a possibilidade de desenvolver a doença.
Pacientes com a doença apresentam uma deficiência na função de insulina – hormona responsável pela redução da glicemia (taxa de glicose no sangue).
Além do fator genético, é uma doença que está associada ao estilo de vida. Uma pessoa com uma alimentação desequilibrada, rica em gorduras, hidratos de carbono, açúcares, possui uma maior propensão para desenvolver a doença. Sedentarismo, obesidade e tabagismo são também fatores de risco que contribuem para o aparecimento da doença.

A diabetes é classificada como uma desordem no metabolismo. O metabolismo relaciona-se com a forma como o nosso corpo usa os alimentos para transformá-los em energia e crescimento.
Grande parte daquilo que comemos é transformado em glicose. A glicose é uma forma de açúcar no sangue – é a principal fonte de combustível para o nosso corpo.
Quando o alimento é digerido, a glicose segue o seu caminho por meio da corrente sanguínea. No entanto, a glicose pode nem entrar nas células se a insulina não estiver presente.

A insulina é uma hormona que é produzida pelo pâncreas. Depois de ingerirmos comida, o pâncreas liberta automaticamente uma quantidade adequada de insulina para mover a glicose que está no sangue para dentro das células. Assim que a glicose entra nas células, os níveis de açúcar descem.
Numa pessoa com diabetes, os níveis de açúcar no sangue mantêm-se altos (hiperglicemia), dado que o organismo não produz insulina em quantidade suficiente, ou até não produz nenhuma, ou possui células que não respondem adequadamente à insulina do pâncreas. Este excesso de glicose no sangue sai do organismo através da urina. Assim, mesmo que o sangue tenha muita glicose, as células não a conseguem receber para satisfazer as suas necessidades essenciais de energia e crescimento.

Dependendo da causa, a diabetes pode ser classificada como:

Diabetes tipo 1: Neste tipo de diabetes, o pâncreas não produz insulina suficiente devido à destruição das células beta do pâncreas (particularmente das ilhotas pancreáticas), sendo por isso considerada uma doença autoimune. A diabetes tipo 1 surge na infância ou na adolescência, levando o paciente a necessitar de injetar insulina diariamente, de modo a ajustar os níveis de glicose no sangue. Esta condição é idiopática, ou seja, de causa desconhecida.

Diabetes tipo 2: O organismo desenvolve uma resistência à insulina ou pode passar a ter uma deficiência na sua secreção. A condição deve-se a uma dieta irregular e prejudicial, devido a um consumo excessivo de refrigerantes, açúcares, hidratos de carbono, alimentos industrializados e ricos em gordura.

Diabetes gestacional: Cerca de 3% a 8% das grávidas desenvolvem diabetes gestacional. Este tipo de diabetes acontece porque as hormonas da placenta reduzem a ação da insulina, devido ao stress fisiológico imposto pela gravidez e fatores predeterminantes (genéticos e ambientais). Para compensar, o pâncreas aumenta a produção de insulina de modo a equilibrar a concentração de glicose no sangue da mãe. No entanto, uma grande parte das mulheres não produz essa insulina extra, o que leva a uma acumulação de açúcar no sangue. A diabetes gestacional é assintomática, pelo que se recomenda a medição dos níveis de glicose com frequência durante o período da gravidez.

Pré-diabetes: Fatores de risco para o desenvolvimento da diabetes tipo 2 incluem parentes de 1º grau com a doença; níveis de glicemia em jejum alterados; baixa tolerância à glicose; hemoglobina glicada (HbA1c) entre 5.7% e 6.4%; histórico de diabetes gestacional; acumulação de gordura abdominal, diâmetro da cintura acima dos 94 cm nos homens e acima dos 80 cm nas mulheres.

A tríade clássica dos sintomas da diabetes inclui:

  • Poliúria (aumento da vontade de urinar)
  • Polidipsia (aumento da sede)
  • Polifagia (aumento do apetite)

Outros sintomas:

  • Perda de peso
  • Visão turva
  • Cetoacidose diabética

Os principais fatores de risco são:

  • História familiar de diabetes, em especial parentes de 1º grau
  • Hipertensão arterial
  • Colesterol HDL (“colesterol bom”) baixo
  • Alterações na regulação da glicose
  • Ser obeso
  • Ter acima de 45 anos

Os médicos podem determinar se um paciente apresenta um metabolismo normal, pré-diabetes, ou diabetes através de 3 possíveis testes:

Análise dos níveis de hemoglobina glicada

  • 6.5% ou superior significa diabetes
  • Entre 5.7% e 5.99% significa pré-diabetes
  • Menos de 5.7% significa normal

Teste de glicemia plasmática em jejum

  • 126 mg/dL ou superior significa diabetes
  • Entre 100 mg/dL e 125.99 mg/dL significa pré-diabetes
  • Menos que 100 mg/dL significa normal

Teste de tolerância à glicose oral

  • 200 mg/dL ou superior significa diabetes
  • Entre 140 mg/dL e 199.9 mg/dL significa pré-diabetes
  • Menos do que 140 mg/dL significa normal

Até ao momento, ainda não há uma cura para a doença, no entanto, é possível manter os níveis de glicose sob controlo, sendo essa a chave para uma vida saudável e para a redução do risco de complicações da condição.

Diabetes tipo 1

De modo a manter os níveis glicémicos controlados, é importante manter uma prática da atividade física de 3 a 5 vezes por semana. No entanto, há restrições no caso de hipoglicemia. Assim, quem tem uma glicemia muito baixa deve ter atenção à prática de exercício físico, sob risco de ficarem com níveis ainda mais baixos.
Pessoas com diabetes tipo 1 devem ter um controlo sobre a sua dieta. Devem evitar doces e hidratos de carbono simples, como massas e pães, pois estes alimentos possuem um alto índice glicémico.
Todos os portadores de diabetes tipo 1 precisam de ingerir insulina diariamente, pelo que precisam de medir os níveis de açúcar diariamente através de um glicosímetro. O médico ou outro profissional de saúde deve ajudar a definir o cronograma de medições a realizar em casa. O médico também deverá ajudar a definir os valores de referência dos níveis de glicose, devendo basear-se nestes resultados para recomendar uma nova dieta, atividades físicas ou medicamentos, de modo a manter os níveis de glicose dentro de valores normais.

Diabetes tipo 2

Algumas pessoas com diabetes tipo 2 conseguem manter a glicemia controlada, mantendo um estilo de vida saudável. No entanto, em alguns casos é necessário incluir medicamentos para o controlo da diabetes.
O primeiro passo para o tratamento da diabetes do tipo 2 passa por ter uma alimentação saudável, isenta do consumo de açúcares simples, manter um peso saudável, e realizar atividade física de forma regular. No entanto, estas medidas nem sempre são suficientes para descer os níveis glicémicos para os valores de referência, sendo neste caso necessário o recurso a medicamentos. Estão ainda disponíveis diversas opções como:

  • Biguanidas - reduzem a quantidade de glicose produzida pelo fígado.
  • Inibidores de DPP-4 e GLP 1 - induzem a diminuição da glicemia, aumentando a quantidade de insulina produzida no pâncreas e diminuem a quantidade de glicose produzida no fígado.
  • Insulina - uma hormona injetável que substitui a insulina produzida pelo organismo para ajudar a controlar os níveis de açúcar no sangue.
  • Inibidores de alfa glucosidase - após as refeições desaceleram a decomposição e a absorção dos hidratos de carbono.
  • Sulfonilureias e meglitinidas - estimulam o pâncreas a libertar insulina.
  • Glitazonas (também designadas por TZDs ou Tiazolidinedionas) - ajudam o organismo a utilizar a insulina e a transportar a glicose para o interior das células.
  • Complicações oculares: glaucoma, cataratas, retinopatia diabética, entre outras.
  • Complicações nos pés: neuropatia, úlceras, por vezes gangrena, que pode levar a que o pé seja amputado.
  • Complicações da pele: pessoas com diabetes são mais suscetíveis a infeções da pele e doenças da pele.
  • Problemas cardíacos: doença isquémica do coração, quando o suprimento de sangue para o músculo cardíaco é reduzida.
  • Hipertensão: é comum em pessoas com diabetes, o que pode aumentar o risco de doença renal, problemas oculares, ataque cardíaco e derrames.
  • Doenças mentais: uma diabetes não controlada aumenta o risco de sofrer de depressão, ansiedade e outros transtornos mentais.
  • Perda de audição: pessoas com diabetes apresentam um maior risco de desenvolver problemas de audição.
  • Doenças na gengiva: há uma maior prevalência da doença em doentes diabéticos.
  • Gastroparesia: as pessoas começam a perder a força de contração da musculatura do estômago.
  • Cetoacidose: uma combinação de cetose e acidose; acúmulo de corpos cetónicos e acidez no sangue.
  • Neuropatia: neuropatia é um tipo de lesão do nervo, que pode conduzir a vários problemas.
  • Nefropatia: o aumento da tensão arterial pode levar a doenças renais.
  • Doença arterial periférica: os sintomas podem incluir dor na perna, formigueiro e, por vezes, dificuldade em caminhar corretamente.
  • Acidente vascular cerebral (AVC): se os níveis de pressão arterial, colesterol e glicose no sangue não estiverem controlados, o risco de AVC aumenta significativamente.
  • Disfunção erétil: impotência masculina.
  • Infeções: pessoas com diabetes não controlado são mais suscetíveis de desenvolverem infeções.
  • Cicatrização de feridas: cortes e lesões demoram mais tempo para cicatrizar.

Muitos presumíveis “factos” são apresentados na imprensa, revistas, internet, sendo alguns deles apenas mitos. Abaixo estão descritos alguns destes mitos sobre a diabetes:

  • Pessoas com diabetes não devem fazer exercício físico - não é verdade! O exercício físico é importante para pessoas com diabetes, dado que ajuda a controlar o peso, melhora a saúde cardiovascular, melhora o humor, ajuda a controlar os níveis de açúcar no sangue, e alivia o stress. Os pacientes devem conversar com o seu médico sobre os exercícios mais ajustados.
  • Pessoas gordas tornar-se-ão diabéticas tipo 2 - não é verdade! Ser obeso ou ter excesso de peso aumenta o risco de vir a desenvolver diabetes, dado que constitui um fator de risco, no entanto, não significa que uma pessoa obesa terá necessariamente diabetes tipo 2.
  • A diabetes é incomodativo mas não é grave - dois terços dos pacientes com diabetes morrem prematuramente de acidente vascular cerebral ou doença cardíaca. A esperança média de vida de uma pessoa com diabetes é de 5 a 10 vezes inferior a uma pessoa sem a condição. A diabetes é uma doença grave!
  • Eu consigo identificar quando os meus níveis de açúcar no sangue estão altos ou baixos - níveis muito baixos ou elevados de açúcar no sangue podem causar alguns sintomas como fraqueza, cansaço, e sede excessiva. No entanto, os níveis precisam de flutuar bastante para se sentir as variações.
  • Altos níveis de açúcar estão bem para umas pessoas, enquanto para outros é sinal de diabetes - altos níveis de açúcar no sangue nunca são normais para uma pessoa saudável. Algumas doenças, stress e esteroides podem causar o aumento dos níveis de açúcar temporariamente.
  • Diabéticos não podem comer pão, batatas ou massa - pessoas com diabetes podem comer alimentos ricos em amido. No entanto, devem ter atenção às proporções.
  • Apenas pessoas mais velhas podem desenvolver diabetes tipo 2 - a prevalência da doença em pessoas mais novas tem vindo a alterar-se nos últimos anos. O número de crianças e adolescentes que tem vindo a desenvolver diabetes tipo 2 está a aumentar. Especialistas associam este facto ao aumento da taxa de obesidade infantil, má alimentação e sedentarismo.
  • Se tem diabetes não pode comer chocolates ou doces - pessoas com diabetes podem comer doces, desde que combinem com exercício físico ou comam como parte de uma refeição saudável.
  • Diabéticos são mais suscetíveis a gripes e doenças em geral - desde que tenha os seus diabetes sob controlo, um diabético possui a mesma probabilidade de ficar doente do que uma pessoa saudável. No entanto, quando um diabético apanha frio, os seus diabetes tornam-se mais difíceis de controlar, tendo um maior risco de complicações.